O Mês da Mulher, marcado por reflexões sobre conquistas e desafios históricos, também traz à tona uma questão silenciosa, mas recorrente: a autocobrança excessiva. Em meio a discursos de empoderamento, muitas mulheres relatam a sensação persistente de insuficiência, como se nunca fossem boas o bastante na aparência, na carreira, na maternidade ou nos relacionamentos.
A pressão estética, intensificada por padrões irreais difundidos nas redes sociais, é um dos fatores mais citados. Corpos editados, rotinas produtivas idealizadas e relações aparentemente perfeitas criam um ambiente de comparação constante e a sensação permanente de estar atrasada em relação à vida das outras pessoas. O resultado é um ciclo de frustração e baixa autoestima.
Segundo a psicóloga Niliane Brito, especialista em Psicologia Clínica (CRP 03/12433), essa sensação tem raízes profundas e multifatoriais. “A mulher foi historicamente condicionada a desempenhar múltiplos papéis com excelência. Quando ela não consegue atender a todas essas expectativas, muitas vezes inatingíveis, surge a sensação de fracasso, mesmo quando há inúmeras conquistas reais”, afirma.
Além da estética, a cobrança por alta performance profissional e equilíbrio emocional contribui para o esgotamento. A ideia de que é preciso ‘dar conta de tudo’ reforça a cultura da sobrecarga. “Existe uma romantização da mulher forte, resiliente, que suporta tudo calada. Isso faz com que muitas ignorem seus próprios limites e necessidades”, explica Niliane.
As redes sociais, embora sejam ferramentas de conexão, também amplificam comparações. “O que é visto e apresentado nas redes sociais é apenas um recorte da realidade — um recorte que cada pessoa escolhe mostrar. Porém, ao consumir esse conteúdo sem senso crítico, muitas mulheres passam a utilizá-lo como métrica para avaliar a própria vida e a própria existência”, pontua a psicóloga.
Especialistas defendem que o primeiro passo para romper esse ciclo é reconhecer a origem dessas cobranças e desenvolver uma percepção mais consciente sobre si mesma. “A partir do momento em que entendemos melhor como funcionamos, conseguimos identificar o que de fato pertence à nossa história e aos nossos desejos, e o que está associado às expectativas e pressões externas”, destaca.
Para Niliane Brito, o Mês da Mulher deve ir além das homenagens simbólicas. “É um momento importante para promover discussões honestas sobre saúde mental feminina. A autoestima não pode estar condicionada à produtividade ou à aparência. Ela precisa ser construída a partir do reconhecimento da própria história, dos limites e da humanidade de cada mulher”, conclui.
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